Como psicanalista, aprendi cedo que o julgamento é o maior obstáculo para a escuta. No consultório — ou na vida — observar o comportamento humano exige uma espécie de “suspensão ética”: em vez de perguntar se algo é certo ou errado, perguntamos para que serve. E poucas coisas são tão reveladoras sobre o funcionamento do nosso psiquismo quanto a nossa indignação seletiva.
Recentemente, fomos atravessados por dois lutos de escalas incomparáveis. De um lado, a trágica morte de Orelha, o cachorro comunitário que mobilizou cidades, gerou abaixo-assinados e uma dor coletiva palpável. De outro, as imagens devastadoras vindas de Gaza, onde o horror se tornou uma constante estatística. Por que o choro pelo cão parece, muitas vezes, mais ruidoso que o silêncio pelo genocídio?
A psicanálise nos oferece algumas chaves para entender isso sem apontar o dedo.
1. O Conforto da “Inocência Pura”
Nós operamos por meio da cisão (ou clivagem). O mundo é complexo demais, então, “simplificamos” o dividimos entre o “totalmente bom” e o “totalmente mau”.
- O animal é o depositário do nosso “fetichismo da inocência”. Ele não tem ideologia, não tem lado na guerra, não nos pede explicações. É um amor seguro.
- Conflitos humanos, por sua vez, são “sujos” de política e história. O ego, para evitar o sofrimento, racionaliza a tragédia humana para frear a empatia. É mais fácil amar o que é simples do que o que é complexo.
2. O Desamparo e a Medida do “Mastigável”
Freud falava sobre o desamparo (Hilflosigkeit) diante de estímulos excessivos. Uma guerra é um trauma de proporções irrepresentáveis; o psiquismo simplesmente “desliga” para não entrar em colapso. Já a morte de um animal local é uma tragédia “mastigável”. Nela, podemos apontar um culpado, pedir justiça e sentir que temos agência. É um luto que cabe na palma da mão.
Essa mesma régua aparece quando comparamos a mobilização por uma criança autista perdida e o julgamento sobre um adulto perdido em uma trilha.
- A Criança (Vítima Sem Mácula): Atribuímos a ela agência zero. Ela representa o desamparo absoluto, o que desperta nosso instinto de preservação mais primitivo. Não há julgamento, apenas socorro.
- O Adulto (Culpado pela Sorte): Aqui, o ego usa um escudo chamado “Hipótese do Mundo Justo”. Se dissermos que o trilheiro foi “imprudente” ou “buscou o risco”, criamos a ilusão de que, se formos cuidadosos, estaremos salvos. Culpar a vítima é, no fundo, um mecanismo de defesa para não admitirmos que o azar e a finitude são aleatórios e podem bater à nossa porta.
A Dieta do Algoritmo
Não podemos esquecer que vivemos a “fast-foodização” da tragédia. Os algoritmos das redes sociais são treinados para o engajamento visceral.
Tragédias lineares (como a do cão ou da criança) têm baixa carga cognitiva; são fáceis de processar e geram uma recompensa moral imediata. Compartilhar Gaza exige esforço, estudo e o risco do conflito de opiniões — algo que a economia da atenção tenta evitar a todo custo.
No fim das contas, a indignação seletiva não é uma prova de maldade, mas um sintoma de nossa limitação psíquica e da nossa necessidade de proteção.
Amar o “puro” é um repouso para a alma; ter empatia pelo “falho” — o adulto imprudente, o outro político, o estrangeiro distante — é o verdadeiro e hercúleo desafio ético da nossa era.