Diz o ditado que quem tem dois burros não fica a pé. Mas, nossos avós não previam a burocracia pública: no feudo dos editais, ter dois burros significa que irão lhe confiscar um deles por excesso de eficiência e ainda exigir três vias autenticadas, na prestação de contas, com justificativas sobre por que você comprou ferraduras.
A vida de quem faz cultura é uma dieta de vento, café frio e prazos aflitos de “enviar o projeto até às 23h59 de ontem”. Passamos meses traduzindo paixões viscerais para o mais puro “editalês”, aquela língua mística e cartorial onde “dar uma aula e contar histórias para crianças” vira “fomentar a descentralização transversal da cadeia produtiva socioeducativa”.
A gente se inscreve em tudo: no municipal, no estadual, no banco privado e até na padaria da esquina, rezando para ser aprovado em ao menos um.
Desta vez, o destino resolveu nos testar: submetemos nossos projetos aos editais estaduais da Lei Aldir Blanc ainda em 2025 (vale frisar: verba estadual via PNAB, nada a ver com os cofres da prefeitura), concorrendo com centenas dos mais talentosos paulistanos.
E esperamos nada menos que um ano inteiro, até que, finalmente, o Diário Oficial se manifestou: primeiro, saiu a aprovação do Ecossistema Cultural ReArte no edital para a nossa Biblioteca! Um mês depois, noutra edição, o ReArte brilhava novamente entre os vencedores com o nosso Ponto de Cultura! Dois editais de peso e valores consideráveis para manter dois anos de trabalhos!
Durante esse período dourado, fiz mil planos. Sonhei em finalmente pagar cachês dignos aos artistas locais, rompendo a praxe inglória de convidá-los pelo afeto e remunerá-los com “um sanduíche e um café”.
A euforia durou até receber um e-mail com uma notificação oficial invocando a famigerada “Regra Mata-Mata”: vedada a acumulação de duas premiações ao mesmo tempo. Fui jogado na Escolha de Sofia da burocracia: “Escolha um filho. O outro fica para trás.”
Como escolher com verbas idênticas e paixões equivalentes? De um lado, o Ponto de Cultura, com sua pulsação comunitária viva. Do outro, a Biblioteca, que, longe de ser um depósito empoeirado de papel com uma coordenadora pedindo silêncio, nos dias de hoje, trata-se de um polo de biblioteconomia social, um ponto de encontro vivo, com oficinas, cursos, palestras, contação de histórias e exposições.
A balança pesou pela raridade. Editais para Pontos de Cultura ainda surgem com certa frequência. Já um fomento robusto para Bibliotecas é cometa de Halley: passa raríssimas vezes na vida e é preciso agarrar.
E o “grand finale” deste doce inferno? Após mais de doze meses de espera e a dor de sacrificar um projeto no altar das regras, o dinheiro ainda não caiu na conta! O Estado opera em fuso horário próprio. E, o triste é saber que, quando a verba aterrissar, virá sem um centavo de juro e correção monetária! Como se a inflação tivesse tirado férias para nos ver fazer cultura.