Na votação do Cine ReArte, até quem perde sai ganhando!

Filmes Mais Votados - Ilustração: Henrique Vieira Filho

Estamos às vésperas do segundo turno das eleições e o brasileiro já desenvolveu habilidades que não constam de currículo algum: desviar de discussões políticas no almoço de domingo, silenciar grupos de mensagens e mudar de assunto com a destreza de um mágico.

Foi pensando em oferecer um intervalo para os nervos nacionais que o Ecossistema Cultural ReArte resolveu promover sua própria eleição. Uma disputa em que ninguém precisa sair brigado, desfazer amizades ou passar o Natal sentado na ponta oposta da mesa!

Nossa urna é cinematográfica. Os candidatos são filmes exibidos pelo CineReArte ao longo de treze meses de programação, em parceria com os Pontos MIS, do Museu da Imagem e do Som de São Paulo. Foram 52 sessões com clássicos, produções brasileiras, animações, documentários e obras de diferentes culturas e épocas.

Tem comédia, suspense, histórias emocionantes e até aqueles filmes que nos deixam olhando para a tela, tentando decidir se entendemos tudo ou se precisamos consultar o filósofo que mora dentro de nós.

Aqui, ninguém promete resolver os problemas do mundo em quatro anos. Alguns concorrentes, aliás, estão por aí há quase um século e continuam dando conta do recado! Charlie Chaplin segue fazendo rir e pensar em Tempos Modernos e Luzes da Cidade. Hitchcock mantém o suspense em dia, enquanto o cinema brasileiro prova que tem muito mais a oferecer do que os intervalos comerciais da televisão.

A palavra final é do público. Basta acessar o link de votação em https://rearte.com.br/eleicoes-os-melhores-filmes-do-rearte/ e escolher os filmes que gostaria de rever em dezembro. Os mais votados voltarão à tela para reencontrar antigos admiradores e conquistar novos espectadores.

Não há campanha milionária nem promessa de que o filme será melhor do que realmente é. Nossos candidatos já fizeram sua campanha: emocionaram, divertiram e provocaram reflexões. Agora, cabe a você escolher quem merece voltar.

Como cinéfilo assumido, vou abrir o jogo: meu voto vai para O Menino e o Mundo, animação brasileira de Alê Abreu, lançada em 2013.

A história acompanha um menino que parte em busca do pai e descobre um mundo bem maior e mais complicado do que imaginava. Com imagens, sons, música e pouquíssimos diálogos compreensíveis, o filme prova que os olhos e o coração entendem certas coisas antes que a cabeça consiga explicá-las.

Entre paisagens fantásticas, máquinas, cidades, trabalhadores e desigualdades, o colorido encanta enquanto a narrativa nos convida a refletir sobre a sociedade em que vivemos. É uma obra que conversa com as crianças sem subestimar os adultos. E, convenhamos, há dias em que uma boa aquarela faz mais pela saúde emocional do que uma reunião de condomínio!

O reconhecimento internacional veio com o prêmio Cristal de melhor longa-metragem e o prêmio do público no Festival de Annecy, em 2014. Em 2016, o filme concorreu ao Oscar de animação e venceu o Annie Award de melhor longa de animação independente. Uma produção brasileira que conquistou o mundo sem depender de personagens famosos ou fórmulas prontas.

Por isso, meu voto está decidido. Mas, se outro filme vencer, não haverá recurso ao tribunal cinematográfico, fraude na contagem das pipocas nem pedido de recontagem dos aplausos. Rever bons filmes é uma ótima maneira de terminar o ano.

Afinal, se Luzes da Cidade ganhar, teremos Chaplin de volta. Se vencer um suspense, desconfiaremos até de quem serve o cafezinho. Se for um documentário, sairemos com novas ideias. E, se ganhar uma animação, ninguém precisará fingir que já passou da idade de se encantar com desenhos.

No CineReArte, o resultado não divide a platéia em torcidas inimigas. O vencedor ganha uma nova sessão, os demais continuam fazendo parte da nossa história e o público sai ganhando. Até os derrotados poderão voltar numa próxima oportunidade!

Desejo que o segundo turno do país transcorra com tranquilidade, respeito e espírito democrático. Na urna da vida real, que cada um exerça seu direito com responsabilidade; na urna cinematográfica, que vença o filme que mais tocou seu coração.

Depois de votar, nada de discutir com o vizinho: convide-o para a próxima sessão. No cinema, até quem discorda da gente pode acabar na mesma fileira, rindo da mesma cena e aplaudindo a mesma história. Afinal, democracia é isso: cada um escolhe seu candidato, mas, quando as luzes se apagam, todo mundo ganha o direito de sonhar junto!