O Molde de Novembro (ou: A Arte de Não Rachar)

Totens de cerâmica artística de Marilena Griesinger - Ilustração: Henrique Vieira Filho

Novembro é aquele mês em que o ano está acabando, mas a lista de tarefas continua com a extensão de um testamento. Lembramos os mortos, aproveitamos os feriados, refletimos sobre a Consciência Negra e tentamos descobrir onde foram parar os outros dez meses. Somos ansiedade ambulante, com a bateria social em 3%.

A explicação mais terrena: somos feitos de barro.

Nos jardins do Museu ReArte, a instalação artísticas com os totens de cerâmica de Marilena Griesinger me fizeram pensar: talvez não precisemos de outro aplicativo para organizar a vida, mas de algo que nos ajude a não perder a forma.

Claude Lévi-Strauss, antropólogo francês que estudou os símbolos das culturas, dizia que os animais associados aos totens eram “bons para pensar”: ajudavam a organizar ideias e relações. Émile Durkheim, sociólogo que pesquisou como símbolos e crenças mantêm as sociedades unidas, via o totem como emblema coletivo. Em bom português: um lembrete de que fazemos parte de algo maior que nossa bagunça.

Nossas reuniões de fim de ano talvez revelassem um novo totem nacional: o boleto. Não serve para comer, é péssimo para pensar e, mesmo assim, manda no comportamento coletivo.

A cerâmica, depois de moldada e levada ao fogo, pode atravessar séculos. Já o ser humano, diante de um “precisamos conversar” enviado às 23h47, racha antes de abrir o celular. Para ganhar forma, é preciso atravessar o calor. A vida adulta também, mas sem garantia de sair do forno em formato de vaso.

A arte pega algo confuso e lhe dá forma. Um quadro não paga a conta de luz, mas devolve a capacidade de olhar o mundo sem pensar no próximo compromisso.

Com o tema “O Que Nos Desperta”, o Ecossistema Cultural ReArte transforma novembro em oficina de restauração da alma. Nas quartas, o Cine ReArte vai do surrealismo de Um Cão Andaluz, de Luis Buñuel e Salvador Dalí, ao suspense de Alfred Hitchcock em Quando Fala o Coração. Depois, É Proibido Fumar cutuca nossos hábitos, enquanto Um Broto Legal, com Celly Campello, lembra que às vezes a melhor resposta é dançar. Os filmes dialogam com Ecos da Mente, exposição em que Fabiana aproxima minhas inquietações artísticas desse universo de imagens e sonhos.

No sábado, dia 7, a advogada e produtora cultural Ingrid Morais conduz a oficina “Luz, Câmera, Ação… e Proteção!”, sobre roteiro e direitos autorais. Descobrir que alguém registrou sua ideia no próprio nome é suspense para o qual nem Hitchcock preparou a gente.

Às segundas, o Clube de Cultura Pop reúne fãs de desenho, animes e jogos. Os clubes de leitura Além de um Livrinho, para crianças, e Além de um Livro, para adultos, provam que uma página aberta pode virar conversa, descoberta e discussão sobre aquele personagem que dá vontade de sacudir pelos ombros.

Os arqueólogos do futuro encontrarão celulares e carregadores incompatíveis, mas, para entender quem fomos, terão de procurar também pinturas, livros, cerâmicas, fotografias e histórias.

Fica o convite: passeie pelos jardins do Museu ReArte, observe os totens de Marilena e venha conversar sobre cinema, quadrinhos ou algo que não termine com “vou encaminhar para o setor responsável”.

Novembro nos aperta no molde; dezembro virá com o maçarico ligado. Se somos feitos de barro, que sejamos cerâmica bem pensada: resistente ao fogo, cheia de histórias e imperfeições. A arte talvez não impeça o mundo de entrar em kaos, mas pode nos ensinar a sorrir enquanto tentamos dar forma a ele.