Existe uma palavra que costuma aparecer muito nos editais de cultura e que, sozinha, já provoca certa estranheza: fomento. Convenhamos: para quem lê depressa, parece que é alguém que vive com fome.
E até que não seria uma associação tão absurda. A palavra vem do latim fomentum, ligada à ideia de aquecer, cuidar e alimentar o fogo. Com o tempo, aquele fogo deixou de ser apenas o da lareira e passou a ser também o das ideias: fomentar virou incentivar, estimular, dar condições para alguma coisa crescer.
No caso da cultura, é exatamente isso. Fomento cultural é investimento público para colocar lenha no fogo de uma boa ideia, fazer com que ela saia do papel e vire atividade, livro, filme, oficina, exposição, biblioteca e chegue, de preferência gratuitamente, até a vida das pessoas!
Depois de aproximadamente um ano de espera, chegou a vez da nossa Biblioteca Sociedade Das Artes, integrante do Ecossistema Cultural ReArte, que fica aqui mesmo, em Serra Negra.
O projeto que apresentamos foi selecionado em um edital de fomento cultural de abrangência estadual, disputando espaço com instituições de todo o Estado de São Paulo. Agora, pelos próximos dois anos, teremos recursos para colocar em prática um plano de revitalização e modernização da biblioteca.
Confesso que fiquei feliz! Até porque, esperar um ano por uma verba cultural é uma experiência que ensina algumas virtudes importantes da alma humana: paciência, persistência e a capacidade de olhar diariamente para a caixa de e-mails sem socar o computador.
Mas, vamos ao que interessa. Afinal, uma biblioteca não se moderniza simplesmente colocando um computador sobre a mesa e dizendo: — Pronto. Agora somos tecnológicos!
Existe uma coisa chamada Biblioteconomia Social, e ela parte de uma ideia que gosto bastante: a biblioteca não deveria ser um lugar onde o livro é tratado como um objeto sagrado que precisa ser protegido do contato com seres humanos.
Livro quer é confusão. Quer sair da estante. Quer entrar na mochila. Quer viajar de ônibus. E, principalmente, quer provocar conversa. Uma biblioteca viva não serve apenas para perguntar quem escreveu determinado livro. Ela também pode ser lugar para conversar sobre memória local, direitos, cultura, história, tecnologia, combate às *fake news*, literatura, cinema, jogos, arte e sobre esse estranho futuro que insiste em chegar sem pedir licença.
E o bibliotecário? Bom, também não precisa ficar confinado atrás de um balcão, exercendo a função medieval de guardião do silêncio. Na perspectiva social da biblioteca, ele é também alguém que conhece a comunidade, escuta suas demandas, aproxima pessoas do acervo e ajuda a transformar aquele espaço numa espécie de porto seguro para conhecimento, convivência e descoberta.
É aí que entra o nosso projeto. Nos próximos dois anos, vamos profissionalizar ainda mais a organização do acervo, implantando um sistema informatizado de catalogação que permitirá localizar os livros com muito mais facilidade e ampliar o acesso às informações também pela internet.
Vamos adquirir e preservar jornais, documentos e pesquisas relacionados à história do interior paulista. Também iremos ampliar a presença das artes, com gravuras e outros materiais.
E teremos também coleções de jogos e cultura pop (em tempo: reuniões do clube todas as 2as feiras). Sim, jogos. Porque existe uma certa mania de imaginar que uma biblioteca precisa ter “cara de séria”!.Eu discordo! Se um jovem entra para jogar, conversa com outras pessoas, descobre uma história, pega um livro emprestado e volta na semana seguinte, alguma coisa muito certa aconteceu.
O projeto também permitirá equipar melhor nossas atividades audiovisuais, fortalecendo as sessões gratuitas de cinema do Pontos MIS e ampliando as possibilidades de exibição de filmes e outros conteúdos culturais.
Uma biblioteca viva não é um depósito de livros e, muito menos, um lugar onde alguém fica eternamente de plantão para dizer:— Psiu! Silêncio!
Livros odeiam o silêncio! Eles foram escritos justamente para fazer barulho dentro da cabeça da gente. Barulho de páginas viradas, de crianças descobrindo histórias, de adultos reencontrando livros, de gente discutindo cinema, jogando, pesquisando a história da cidade, lembrando dos antigos jornais e, quem sabe, até discordando uns dos outros.
Porque uma biblioteca que ninguém frequenta pode até estar perfeitamente silenciosa. Mas uma biblioteca viva? Essa tem mesmo é que fazer barulho!
Acompanhe a evolução desse projeto em www.rearte.com.br.